quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Cadeia Internacional


Durante uma ida a um supermercado da cidade a fim de saciar a fome do domingo à noite, quando cheguei no caixa, me deparei com a foto do “Tio Lula” estampada na capa da revista Veja desta semana. Apesar do alto valor da publicação semanal (R$8,90), resolvi comprar um exemplar, pois me interessei em saber o que pensam jornalistas, políticos e pensadores do país, acerca do filme “Lula, o filho do Brasil”. Logo na capa da revista, para quem não teve ainda a oportunidade de ver, a película é chamada de “melodrama” e “propaganda (eleitoral)” e, exatamente por esse motivo, acabei por não me interessar tanto pala reportagem e confesso que ainda não a li.

Porém, de acordo com o título deste texto, já se repara que cinema não é o objeto a ser debatido. Caso haja comentários, é claro.

As páginas amarelas da revista Veja, trazem sempre uma entrevista interessante, de alguém renomado ou não, que tenha algo, ao menos, polêmico para falar. Desta vez não foi diferente.

Adolfo Pérez Esquivel é um ativista político (por ele mesmo rotulado) argentino. Acalmem-se... ele não fala sobre o Maradona, rsrs. Originalmente professor de uma faculdade de arquitetura, abandonou o cargo para se dedicar aos direitos humanos, oportunidade em que foi agraciado com o Prêmio Nobel da Paz (1980) pela sua luta dentro da América Latina e, atualmente, aos 78 anos de idade, se dedica a um projeto audaz para tornar o combate aos crimes ambientais uma função também do Tribunal Penal Internacional de Haia, o qual passaria a julgar as ofensas ao nosso já machucado planeta.

Logo no primeiro questionamento, a jornalista Gabriela Carelli, quis saber sobre a equivalência entre os crimes que são julgados na Holanda, como o genocídio e crimes de guerra e os crimes ambientais. A resposta veio sob a forma de nova pergunta, através da qual o Sr. Adolfo indagou qual seria a diferença entre o assassinato de milhares de civis em ataque no Afeganistão e a matança de milhares de civis por contaminação da água.

A partir daí, já se conclui que realmente a razão do pensamento do entrevistado é no mínimo fundamentada em algo que me pareceu muito óbvio. Se crimes de guerra, que matam em massa e são capazes de devastar regiões e populações, causando comoção mundial e protestos da mais elevada importância devem ser julgados pelo mais alto Tribunal Penal, por que os crimes capazes de transformar uma região de mata natural, de fauna e flora diversificada, que nos fornece água, comida e estabilidade climática, num deserto seco e improdutivo não poderiam levar os responsáveis à prisão perpétua, pena máxima aplicada por Haia???

Sendo simplista, a devastação da floresta Amazônica para plantio de soja e capim gordura (ou até mesmo cannabis e folha de coca), acaba por dizimar, algumas vezes, tribos indígenas inteiras, além, é certo, de deixar os demais habitantes da região sem a sua maior fonte de renda, que seria o extrativismo controlado (caso lhes fossem proporcionado meios para isso, é claro).

Desculpem-me a simplicidade do parágrafo acima. Foi só uma forma de tentar mensurar o quanto a sujeira provocada por todos nós, os desmatamentos, as extrações minerais impensadas e o uso desmedido da água podem potencializar intempéries climáticas, calamidades e catástrofes pelo planeta afora.

Sem perder o foco da entrevista concedida à Veja, fazendo alusão e conferindo total razão às palavras de Pérez Esquivel , concluí-se que “Morte é morte em qualquer lugar, assim como a fome é terrível e devastadora em qualquer lugar do mundo. No entanto, poucos param para pensar no estrago que as catástrofes ambientais causam diariamente ao planeta e às pessoas que o habitam. A contaminação da água e do solo e a destruição da biodiversidade acarretam doenças, pobreza e falta de comida”.

Desta forma, a punição de todos que, de alguma forma, continuam a ameaçar a vida de bilhões de pessoas, é fundamental para que a luta pela remediação dos estragos já ocorridos e prevenção dos que ainda podem acontecer, possa obter o êxito tão esperado (ao menos é o que todos falam). O rigor que o Tribunal de Haya oferece, na minha mera opinião, ainda é pouco diante das atrocidades cometidas contra o planeta e a raça humana.

Nem me ative ao fato da entrevistadora ter tocado no assunto de soberania da nações, até porque o entrevistado responde à indagação perguntando o que é mais importante: “a soberania alimentar ou a soberania dos estados?”. Com razão, ele afirma que há uma necessidade urgente, declarada pela ONU, de esquecermos as fronteiras e pensarmos no ser humano que as delimitou um dia.

Desta forma, comparando poluidores a carrascos nazistas e os nivelando na hora de julgar seus atos, talvez tenhamos uma diminuição nas agressões e quem sabe, chegaremos à utópica, porem necessária, convivência harmônica do ser humano com o meio ambiente.

2 comentários:

  1. Muito bom seu texto, priminho!
    Sempre soube da sua "fome" de argumentaçao, coisa que me parece, vem de família, nao!? Mas me surpreendi com um texto tao bom.
    Sobre o tema... será que uma vez na vida vamos ter que dar razao à um argentino??
    Um beijo enorme!
    Vanessa

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  2. é Nê, pior que temos que dar razão a ele mesmo... obrigado pelos elogios... com certeza a coisa deve ser de família mesmo...

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